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julho 24, 2008

Conto Maytréia 39: Sonho Realizado


Era o ano de 1884 e estava ocorrendo mais um pogrom, um ataque à comunidade judaica de um pequeno povoado nos arredores de São Petersburgo. O inverno russo prosseguia em seu ápice. Os ventos rugiam com força, a neve caía inclemente, e uma jovem mulher grávida gritava em agonia, enquanto era ajudada por três parteiras de uma comunidade de pastores de cabras. A família dela já devia estar morta, caçada pelos executores mandados pelo Czar, e sua vida também estava por um fio.

A criança nasceu berrando, e assim que seu choro ecoou pelas campinas cobertas de neve, sua mãe deu seu último suspiro, após sussurrar algumas palavras ao ouvido de uma de suas ajudantes.


SONHO REALIZADO foi escrito por Simoes Lopes

julho 02, 2008

Conto Maytréia 38: Amazonas


Guillermo de Fontes e Fernando de la Manzana estavam há mais de um mês descendo o grande Rio das Amazonas. Foi aqui que Orellana dissera ter visto belas mulheres nuas de longos cabelos loiros a banhar-se, e assim considerando-as como as Amazonas das lendas gregas, batizou o grande rio em sua homenagem. O tempo passou e as narrativas do grande conquistador caíram em descrédito. “Eram apenas silvícolas da região com seus longos cabelos”, diziam os estudiosos, mas mesmo assim o caudaloso rio-mar conservou seu nome de batismo.


AMAZONAS foi escrito por Simoes Lopes

junho 15, 2008

Conto Maytréia 37: Degredo


Aleixo do Souto estava parado no cais há pelo menos umas duas horas, com o ar ansioso. As águas do mar estavam escuras, e grandes nuvens negras cobriam o céu tempestuoso. Alguns raios cortavam a escuridão de vez em quando, e a neblina cobria as ilhotas mais próximas. Apesar disso, o vento continuava quente, e Aleixo, nascido nas regiões frias e montanhosas do interior de Portugal, praguejava constantemente contra o "maldito" calor tropical.



DEGREDO foi escrito Simoes Lopes

junho 10, 2008

Conto Maytréia 36: Ordem e Progresso


Rio de Janeiro, 30 de novembro de 1878

Caríssimo Iota-Sigma,

Os nossos elementos infiltrados na Côrte foram extremamente bem sucedidos em planejar aquela viagem ao Egito. O Imperador tem sido influenciado com muita argúcia em nossos intentos de promover o salto para um novo estágio. Os Sete Artefatos foram trazidos com segurança das terras egípcias, e já encontram-se em poder de Lambda-Kappa no antiquário junto à pedreira. Estou muito satisfeito em comunicar-lhe o sucesso auspicioso em nossa missão. Digamma-Beta foi escolhido como o novo Economus da Loja, e continua insistindo para que nos concentremos na alimentação da Egrégora do Progresso, devido ao ponto pivotal que o Brasil terá no futuro da Humanidade. Uma nova Civilização está emergindo graças ao nosso meticuloso planejamento. As peças-chave já estão posicionadas no tabuleiro. Cabe a nós iniciar as jogadas.

Meus cumprimentos sinceros,

Delta-Omikron

Recife, 9 de setembro de 1879


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ORDEM E PROGRESSO foi escrito por Simoes Lopes

junho 03, 2008

Conto Maytréia 35: O Edda Apócrifo


Contava meu avô Érik Ólafsson que quando o monge islandês Snorri Sturluson preparava sua compilação de lendas pagãs por volta do ano de 1225, teve como companheiro e auxiliar em seus estudos meu bisavô Ólaf Egilsson, que então era apenas um jovem e idealista candidato a religioso. Anos depois, meu bisavô veio a conhecer uma bela mulher que tornou-se sua mestra tanto nas artes tortuosas do amor assim como no conhecimento dos sombrios mistérios que nos mantêm todos presos à Grande Mentira que aprisiona este mundo de mentes adormecidas. E foi assim que noviço Ólaf Egilsson deixou de ser um monge cristão para tornar-se um Brâmane Liturgo. Ele transmitiu seu vasto cabedal de sabedoria para seu filho único, meu avô Érik Ólafsson, que por sua vez transmitiu-os a meu pai Thorsteinn Ériksson. Meu saudoso genitor, antes de sua morte precoce nas mãos de nossos inimigos impuedoso, ensinou boa parte do que sabia a mim, Magnus Thorsteinsson. Como todos em minha singela linhagem, eu também tornei-me um Liturgo.


O EDDA APÓCRIFO foi escrito por Simoes Lopes

maio 18, 2008

Conto Maytréia 34: Guerra Religiosa


Pierre Lemoine levanta seu ancinho impiedosamente e espeta o ventre de seu primo Thierry Lemoine. Pierre extravasa todo o seu ódio pelo parente, que agora está caído no chão, e leva mais um chute. A turba de protestantes huguenotes assiste à cena e vem em socorro de Thierry, que foge pela viela escura. O chão barrento está escorregadio, e ele acaba caindo.




GUERRA RELIGIOSA foi escrito por Simoes Lopes

maio 06, 2008

Conto Maytréia 33: Escravizando


Fui eu mesmo quem batizou esta região de Selva Sépia, devido à tonalidade característica de suas frondosas árvores de aspecto alienígena. Nakamura e Schuster indicaram-se pela primeira vez sua localização num subsetor inexplorado da chamada Área 15 dos reinos astrais. Há exatos dois anos iniciei sua exploração e catalogação, primeiro com a ajuda de Schuster, e depois sozinho. Meu colega austríaco resolveu dedicar-se a batalhas místicas por egrégoras perdidas na América Latina, enquanto eu persisti em minha incessante exploração das maravilhas da Selva Sépia.


ESCRAVIZANDO foi escrito por Simoes Lopes

maio 01, 2008

Conto Maytréia 32: Castelos de Areia


Quando eu era jovem,

Parecia que a vida era tão maravilhosa,

Um milagre,oh

ela era tão bonita,mágica.
E todos os pássaros nas árvores,
Eles cantavam tão felizes,
Alegres,brincalhões,me olhando.
Mas aí eles me mandaram embora,
Para me ensinar a ser sensato,
Lógico,responsável,prático.
E mostraram um mundo
Onde eu poderia ser dependente,
Doente,intelectual,cínico.
Logical Song, Supertramp

Quando eu era pequeno, a primeira coisa que eu fazia quando ia à praia, era construir um castelo de areia. Dia após dia, lá estava eu. O mar vinha e destruía tudo, mas sempre estava eu de novo, recomeçando o mesmo processo, dia após dia.

Dia após dia.


CASTELOS DE AREIA foi escrito por Simoes Lopes

abril 28, 2008

Conto Maytréia 31: O Terceiro Presente


Escrevo estas palavras sob o testemunho de Alá, o Misericordioso, aquele que esteve no Início e estará no Final dos Tempos. Sob sua grandiosidade, este humilde servo narra os acontecimentos que marcaram sua juventude e — a partir daí — sua vida.
Eu era um jovem e arrogante líder há trinta anos atrás. O nome de minha tribo era sussurrado pelos passantes no deserto com temor e reverência. Em nossas passagens, vimos o pôr-do-sol de diversas formas e o seu nascer nas mais diversas paisagens. Nada temíamos e todos nos temiam, e aos infiéis com palavras que nunca diziam o que demonstravam dizer garantíamos o castigo do Criador, pois eles ofendiam aos Seus olhos (que Alá seja misericordioso para com nossos erros!). Tudo e todos se afastavam ou se escondiam diante de nosso grito de guerra. Menos o deserto e o sol, estes eram perenes e imperturbáveis para com nossas ações. De vez em quando eles juntavam-se para mostrar que nada pode ser orgulhoso diante da Obra do Todo-Poderoso. Quando isto acontecia, o sol se impacientava e agitava aos ventos, que em sua fúria se juntavam ao deserto e tentava nos engolir. Estes eram momentos de orar e implorar pela misericórdia divina, pois não havia prepotência humana que se mantivesse diante da ira das areias que já engoliram cidades inteiras.


O TERCEIRO PRESENTE foi escrito por Danilo Faria

abril 25, 2008

Conto Maytréia 30: Sonhos que Morrem


Mesmo após dois anos de intenso treinamento com os Mecenas, Jerônimo ainda sente um certo medo quando viaja pelos planos etéreos. Sua mestra, Bali, a quem já confessou seu desconforto, segue à sua frente moldando partículas anímicas para criar uma ponte de tijolos azuis que os leva através de uma silenciosa região onde a luz não chega.

Naquela escuridão abissial, os dois Iniciados movimentam-se com a velocidade do pensamento, singrando o vazio por meio de linha de luz ondulante que a cada pausa de Bali, congela-se na forma de tijolos.


SONHOS QUE MORREM foi escrito por Simoes Lopes

abril 24, 2008

Conto Maytréia 29: Uma Nova Visão


Só sabe o valor de alguma coisa aquele que teve algo e a perdeu. A saudade é conhecida apenas por quem teve um grande amor. O custo do dinheiro é percebido somente por quem suou sua camisa por ele, ou por aqueles que o tiveram, mas acabaram perdendo. O sentido da visão só é valorizado por quem deixa de enxergar. Este é o meu caso.

Eu tinha apenas 23 anos, e minha principal função era ir a festas. A faculdade de História era apenas uma distração. Foi quando as dores de cabeça começaram. A princípio, não dei muita bola, devia ser a cerveja. Mas com o tempo, eu não conseguia mais suportar, e acabei indo me consultar com um oftalmologista.


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UMA NOVA VISÃO foi escrito por Henrique Luiz Panisson

abril 21, 2008

Conto Maytréia 28: Um Prado Triangular




Uma figura solitária em seu centro, nos limites da percepção daqueles que já abriram seus olhos.
Três cores viajam pelo lugar: o branco das nuvens que viajam pelo céu azul, e o escarlate de um poente outonal, logo ali, um horizonte além.
Um jovem sonha.
Uma grande espiral surge, à sua frente, o lampejo criativo e desenfreado que a tudo forma, e a tudo muda. Observando atentamente, o jovem muda com ela, uma criança, um embrião, asas, escamas, auréolas e chifres surgem randomicamente em seu corpo, fruto dele mesmo... ou de outro alguém?



UM PRADO TRIANGULAR foi escrito por Patrícia Peret

abril 18, 2008

Conto Maytréia 27: O Segundo Presente

Hira era linda. O frescor e tom de sua pele, os movimentos suaves que tentava esconder e os olhos rasgados lhe impregnavam de uma sensualidade estonteante para os homens. Mas, infelizmente, ela considerava isso um fardo, pois seu objetivo era alcançar o Nirvana. Hira era uma monja.

No Budismo que ela seguia, o desapego aos acontecimentos era o elemento essencial, poderia se dizer que era a raiz da doutrina. E Hira dominava bem seus sentimentos e pensamentos. Conseguia penetrar nos âmagos mais profundos dos recessos sem fim daquilo que sua mente ilusoriamente era.

O SEGUNDO PRESENTE foi escrito por Danilo Faria

abril 06, 2008

Conto Maytréia 26: Triste Natividade


Ele observa com orgulho o grupo de jovens que se retira da sala. Em todos eles os olhos brilhavam com a empolgação dos novos aprendizados que lhes foram passados. Não eram muitos, mas eram a nata, eram a elite. Alguns ficam para conversar após a aula. O interesse deles nos conhecimentos transcendentais e a clara demonstração de apreço pelo mestre eram um alento para o seu espírito. Ele sentia-se bem, útil e feliz.

Ali, preparava guerreiros na luta pela dominação da Realidade. O mundo precisava ser libertado e ele sabia que isso não seria conseguido sem luta. É verdade que ainda não havia sido definida a função da Loja que havia acabado de fundar. Mas ele sabia do que a Divindade precisava agora: soldados. Aqueles que se sacrificariam na gloriosa batalha pela libertação da humanidade e sua Iluminação.


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TRISTE NATIVIDADE foi escrito por Danilo Faria

março 31, 2008

Conto Maytréia 25: O Rito Dionísico


Fora eu levado para um terreiro de umbanda, nos fundos de uma antiga casa. O responsável pelo lugar, um senhor simpático de uns sessenta anos (Hélio era seu nome), respondeu-me a saudação com um sorriso afável. Ele e meu mentor cumprimentaram-se e conversaram por uns minutos, ao que fui deixado só com nosso anfitrião.

— Pode perguntar.

Hesitei alguns momentos, olhando o terreiro ao meu redor — uma pequena cerca, de meio metro de altura, separava o terreiro propriamente dito da assistência, onde havia cinco fileiras de bancos de madeira; no altar, imagens de diversos santos católicos: São Sebastião, Sant’Ana, o Arcanjo São Miguel, São Jorge e, é claro, Jesus Cristo. Figuravam também imagens diversas de índios, ciganos, budas, além de pedras e velas.

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O RITO DIONÍSICO foi escrito por Renato Simões

março 29, 2008

Conto Maytréia 24: O Presente

Eram duas e estavam a repetir um ato milenar. A avó esfregava suavemente em alguma pedra a roupa que lavava no rio, a neta observava. A neta era noiva e tinha 18 anos, a avó era viúva e não vamos comentar sua idade, pois é feio falar da idade de uma dama depois de uma certa altura da vida. No início, a neta se propôs a ajudar a avó lembrando da máquina de lavar que tinha na casa da mãe, mas esta retrucou afirmando que se uma mulher não pudesse mais lavar as suas roupas, o que ela faria? A neta então só observou, se perguntando o porquê de ter sido chamada até ali.


O PRESENTE foi escrito por Danilo Faria

Conto Maytréia 23: A Videira e os Ramos




Como um elefante que se desgarra da manada pra morrer, Aureliano, Grão-Mestre da Ordem Martiniana da Escola Liturgista, afastou-se pra o anonimato a fim de cumprir sua sentença última. Desde há muitos meses, ele percebeu a aproximação sub-reptícia da Parca. Com seus olhos iluminados, vislumbrou a doença e a atacou. Mas seus poderes pareciam inúteis para contê-la. Esmiuçou, então, suas causas. E viu o germe extemporâneo de desequilíbrios passados. Encerrou seus negócios, distribuiu ordens, conversou com seu sucessor.


A VIDEIRA E OS RAMOS foi escrito por Renato Simões

março 24, 2008

Conto Maytréia 22: O Sofista


Seus pés tocaram a margem barrenta do grande rio, e ele viu a embarcação que o levaria dali para suas plagas. Não sem uma ponta de saudade e remorso, o Mayávico virou-se e olhou para a pequena comunidade ribeirinha com que passara seus últimos meses.

Homens e mulheres acumulavam-se atrás dele, olhos nublados de pranto pela sua partida. Nisto, Benzedeira aproximou-se dele e disse, no seu doce dialeto:

“Sabiômem que de nós viveu um tanto, não te vai sem antes falar dos poucos que viu vindo cá, entre céu e terra, entre vida e viração.”


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O SOFISTA foi escrito por Renato Simões

Conto Maytréia 21: Os Cinco Minutos

A imagem que permaneceu nublada por um segundo entrou em foco, então. Houve outro segundo — este, de hesitação. E ele puxou o gatilho.

O barulho, abafado pelo silenciador, foi exatamente igual ao dos filmes. O rapaz dentro da mira caiu, mãos no ventre, mexeu-se alguns segundos e parou. As formiguinhas fora da luneta começaram a correr, alucinadas. Alguém chutara o formigueiro.

A imobilidade do seu alvo no chão mostrava que sua pequena vendeta estava consumada. Mas ele teve a súbita curiosidade de saber se acertaria alvos em movimento. E começou a brincar de Deus. A polícia demoraria a chegar (a única coisa com a qual pode se contar no Rio de Janeiro), e mesmo lá, dificilmente o acharia. E se achasse, ele se entregaria e iria para um hospital psiquiátrico. Ponto.

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OS CINCO MINUTOS foi escrito por Renato Simões

março 16, 2008

Conto Maytréia 20: Xeque-Mate

— ...então, não sentirei mais nada?

— Mais nada. Você estará em nós, e nós todos estaremos com a Causa.

O entropista continuava me olhando com aquela atitude inexpressiva, como se pouco se importasse com minha decisão.Ele sabe que não há o que temer de minha parte, uma vez que quem o procurou fui eu.

— Haverá um resquício de sua personalidade humana. Mas ela estará despojada da dor, do apego, enfim, de tudo o que causa o sofrimento.

— Serei uma espécie de fantasma vivo, incapaz de sentir qualquer coisa...


XEQUE-MATE foi escrito por Renato Simões
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